Gaston Bachelard e os Obstáculos à Aprendizagem

 

Gaston Bachelard (1884-1962)

Gaston Bachelard (1884-1962)

Segundo Gaston Bachelard (1996) conhecer é criar uma metáfora do real. Nesse sentido, faz-se necessária a consciência de que o sujeito que busca conhecer interfere e transforma o objeto do conhecer, já que o sujeito possui uma historicidade e carga de conhecimento e experiência prévios contra os quais o objeto do ato de conhecer se articulará para se tornar conhecimento. Cada indivíduo possui sua estrutura única que, ao internalizar ou “metabolizar” o objeto do conhecer, se sujeita à reorganização de sua estrutura, no sentido de que uma desconstrução do conhecimento deverá acontecer para que uma reconstrução do mesmo possa se fazer viável, como nos fala Maturana e Varela (1984). Segundo esses autores, não existe realidade fora do sujeito. “A experiência de qualquer coisa lá fora é validas de uma maneira particular pela estrutura humana, que torna possível a ‘coisa’ que surge na descrição. Essa circularidade, esse encadeamento entre ação e experiência (…) nos diz que todo ato de conhecer faz surgir um mundo.” (Maturana e Varela, ibid., pg. 31-32)    

Para Bachelard, a curiosidade deve superar o desejo de criar. Faço uma analogia com as noções de experiência/sentido e informação/opinião propostas e exploradas por Jorge Larrosa Bondía (2002), no sentido de que a curiosidade se assemelha a estar aberto à experiência propiciada no processo do conhecer, enquanto que o desejo de criar pode ser comparado ao desejo de transformar informação em opinião sem no entanto se ter permitido a experiência do conhecer. De fato, Larrosa problematiza a ideia de “aprendizagem significativa” a partir do par informação/opinião, criticando uma pedagogia que assume que a aprendizagem é o mero consumo de informação, e que o que a torna significativa é a formação de uma opinião acerca da informação recebida. Esse é um equívoco que parece ser emblemático na sociedade da informação, segundo Larrosa. Retornarei a essa argumentação mais adiante. 

Entendo aquela afirmação de Bachelard como sendo representativa do processo de transformação do indivíduo em uma espécie de repositório de conhecimento e cultura (ou informação para Larrosa). Tal noção nos remete à crença de que o saber é um fim em si mesmo. É o que Bachelard chama de “cabeça bem feita”, que para ele é uma “cabeça fechada”, um “produto de escola”. O conhecimento de nada nos serve se for um fim em si mesmo. Conhecer deve ter a função de gerar uma experiência. Uma experiência de si mesmo no mundo sob a interferência de determinado objeto de conhecimento. Uma experiência do mundo que emerge da articulação entre sujeito e objeto do conhecer. Conhecer deve, assim, ser um ato dinâmico, em que acontece uma articulação com o sujeito que está na experiência gerada pelo conhecimento. O conhecimento não encontra uma página em branco ou uma tábula rasa quando adentra o indivíduo. Ele (en)contra ou vai de encontro a uma subjetividade que ali existe e que é resultado de conhecimentos/experiências prévias do mundo vividas por aquele sujeito. Dessa maneira, a estrutura deve ser sempre confrontada e reorganizada de forma a incorporar o novo conhecimento. 

Nesse sentido, entendo que de certa forma nós mesmos podemos ser “obstáculos” para o aprender, no sentido de que todo novo aprender se configura “contra” uma estrutura/organização pré-existente. Uma outra dimensão que pode se configurar como obstáculo para o aprender é a nossa própria estrutura biológico-cognitiva, constituída pelo nosso cérebro e sistema nervoso, assim como nossos órgãos dos sentidos. 

2 comments

  1. Clarissa: “curiosity must overcome the desire to create” has to be up there with “In combat between you and the world, prefer the world” as a useful strategy for experiencing the world. If there is no reality outside me then what is the nature of what I sense is outside of me? Or am I getting in my own way by constantly interpreting what comes to me as “the world” into a model of the world? So I seem the be split into 3 parts:

    1. myself as the neural pathways built into my brain and called “experience” that could actually be a kind “blindness” because of bias or a need for sense
    2. an intermediate place of enactment of the raw input the world presents me to process
    3. a generative reality that is beyond my view

    If I choose the world then #2 is likely as far as I can get as #3 may be only an imaginary place built by me to support the first two. Hopefully some of this can be tested when I go back for more surgery and reality is turned on its head again.

    It’s interesting that I can’t “get into” Maturana and Varela or Larossa but things seem clearer explained by Bachelard and Maria Moraes. At least to the point that I can start thinking about what they say. Thanks for this.

    Scott

  2. Scott, this is wonderful. You ask: “If there is no reality outside me then what is the nature of what I sense is outside of me?” I say the nature of what is outside of you, and which you do not experience, is part of other worlds, others’ worlds, others’ realities. The nature of that from our perspective is contemplation.

    Warmest,
    C.

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